2022
NOVEMBRO, 27

Para todos os demônios que um dia ignorei:
A vontade de surtar é grande. Eu só quero explodir ou explodir alguém. Mas, espere, de quem é a real responsabilidade pela forma como estou me sentindo: Quem me causa a dor ou quem está escolhendo permanecer com ela?
O mundo já está cheio de ódio, eu não quero alimentar ainda mais essa desgraça. E eu acredito que sim, eu sou melhor do que isso, eu sou melhor que essa raiva. Porém,

o que significa ser melhor enquanto Ser Humano?

Questiono-me:
Engolir os sapos e deixar que se dissipem em energia densa, acumulando-se em algum órgão vital do meu corpo, é ser iluminada? Começo a perceber o quanto essa necessidade tóxica só existe no discurso.
“Você não é um robô”, digo, olhando fixamente dentro de meus próprios olhos através do reflexo no espelho, “Permita-se sentir o Ódio do momento”.
Não é um pedido. É uma ordem e não há ninguém melhor no mundo para obedecer do que eu mesma. Na verdade, eu sou única à quem devo qualquer tipo de satisfação.
E grito.

Mas não grito como quem dá esmolas. Grito abundantemente e com toda minha fúria. Respiro fundo, puxo todo ar possível para dentro de meus pulmões e grito outra vez. Eu poderia estar usando um travesseiro para abafar, mas já me abafei demais e continuo gritando como se não houvesse amanhã. Grito até não restar um fio sequer de fôlego. E quando só me resta o choro, me abraço e choro. Choro… Choro… Quando o cansaço enfim bate, estou mais leve que uma pluma e a sensação é a de que posso flutuar, embora só eu queira ficar ali no canto do meu silêncio. Observo o estrago que causei. Aceito. Contemplo. O caos também é uma obra de arte. E então, descanso. Sem culpa. Sem receio. A fera recém parida permanece diante de mim, mas ela já não me domina. Eu a encaro e percebo que ela também só quer descansar. Ela está em paz, pois foi reconhecida. E eu aqui, plena, pronta para ressignificar o que já não me consome mais.

Eu já nem me lembro a roupa que você estava usando quando te vi partir. Continuo dizendo para mim mesmo e qualquer pessoa que, porventura, venha a me indagar; que dou um boi para não voltar no tempo e uma boiada inteira para não sair de lá.

Não olhe agora, eu estou te olhando…

E ainda que duvide, hoje reparei no seu novo jeito de amarrar o cabelo. Achei que duraríamos até que ele crescesse novamente e assim eu pudesse confirmar a suspeita que tive desde o começo. Você é linda de qualquer forma, e quando falo isso me refiro a um conjunto de aspectos ímpares, só seus. Aquilo que você me contou certo dia, traços que se deixou mostrar. Eu te conheço tão pouco, você me conhece tão bem. Te acusaria por ter sido injusta nesse quesito, mas o desleixo foi todo meu, eu sei. Admito, é complicado simplesmente aceitar o fato, mesmo que a porta aberta nos lembre o tempo todo que fui eu que te deixei ir. E por permitir isso é que eu te chamo, nem que seja só para falar dos meus mais loucos planos. Você se espalha no canto de minha cama e eu tento não pensar no que eu faria se ainda tivesse o mérito de tirar sua roupa. Gosto quando me olha e espreme os lábios para não deixar escapar o sorriso que te provoquei, como se não quisesse me deixar ainda mais convencido de que sim, eu te faço bem. Certa você. Talvez eu não a mereça tanto quanto no fundo você gostaria que fosse, mas não significa que eu me orgulhe disso. Eu queria ter sido mais do pouco que fui. Eu queria não almejar tanto e tão futilmente. Eu queria que você fosse a única. Queria não ter que me comportar como o bom amigo e o pior cafajeste que sou, e que você não fosse embora da minha vida sem me deixar a certeza de que vai voltar. Paramos na primeira lombada e o carro estancou, você desistiu de empurrá-lo e eu não insisti. E eu continuo sem me mover, enquanto você aparenta se afastar aos poucos. Permaneço na dúvida e você no receio. No final do dia, respiramos as escolhas que fizemos e exalamos a falta do que não foi. Me despeço de você na porta e engulo a mesma pergunta que sempre retorna: E se fosse? (outra vez…)

(L.R.Magalhães)

Você é exagerada, isso equivale a uma semana comigo mesmo. Agora eu sou um romance feito engenhosamente…

Letra: http://goo.gl/a2NnyE

E agora que o sono bateu e o corpinho espreguiçou, eu me pergunto: por onde anda o amor? Agora que a mamãe deixou o leito, fechou a porta devagarzinho para não fazer barulho, eu me pergunto: o que o mundo se tornou? E se o fim for o melhor começo longe daqui, será que devo acordar? Vale mesmo a pena ficar? Talvez exista um lugar melhor…

L.R.Magalhães

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